Rais partam isto

Textos que não interessam a ninguém escritos por um niilista agnóstico(seja lá isso o que for...)


O João

João era servente.
Na adolescência saiu de casa e, apaixonado pelo espírito dos saltimbancos, foi trabalhar para os carros de choque.
Um dia em que, porventura, bebeu demais, acordou e estava sozinho. Os carros de choque e os poucos bens do João tinham desaparecido. Sem nada mais do que a roupa que trazia no corpo viu-se abandonado numa localidade do interior que já viu nascer um presidente.
Por ali ficou, arranjou trabalho, fama de trabalhador e uma namorada com quem casou.
Teve duas filhas. A mulher morreu jovem, quando as miúdas eram bebés.
O João entregou-se à heroína e as filhas foram criadas pela Santa Casa.
Conheci-o quando o prenderam.
O Cristiano pediu para ir à casa de banho do Tribunal e conseguiu fugir num momento de distracção do polícia que o acompanhou.
O João ficou. Foi detido por tráfico e cumpriu dois anos de prisão preventiva.
Acabou absolvido. Na verdade era - e sempre foi - apenas consumidor.
Mas o João roubava. Acompanhava amigos consumidores em assaltos a vivendas.
Em casa guardava o produto dos roubos. A parte que lhe cabia.
Não ficava com o dinheiro ou com as jóias. Guardava serviços de copos, faqueiros, atoalhados, lençóis, serviços de chá… Todos impecavelmente arrumados na casa do João.
Roubava para o enxoval das duas filhas a quem nunca pudera dar nada pelo malfadado vício que o corroía.
Voltei a vê-lo algum tempo depois da libertação. Estava limpo. Trabalhava de Domingo a Domingo para recuperar o tempo perdido. Decidira que aos 40 já era tempo de mudar de vida.
Desenvolvemos uma estranha amizade.
Veio ter comigo porque os cunhados o queriam despejar da casa de família onde ele vivia. Disse-me que não se importava de ser despejado mas pediu-me que tentasse convencê-los a darem a casa ás sobrinhas, as filhas do João. Eles são ricos e não precisam. Só fazem isto para me atingir. Mas a casa é a única coisa de valor que eu posso deixar para as minhas filhas. Comoveu-me e tentei.
Num dia de Setembro de um destes anos atendi o telefone a uma daquelas clientes que sempre desejei não ter. Do outro lado dizia-me: Olhe, aquele seu cliente, o João R. ficou-me aqui a dever umas refeições no restaurante… Encontraram-no ontem morto, como é que eu faço para receber?
Desliguei-lhe o telefone sem responder. Tinha aprendido a respeitar o João.
Foi traído pelo coração, mal tratado durante anos. Encontraram-no em casa, morto há já vários dias.
Lembro-me dele com frequência. Um estranho criminoso de quem era difícil não gostar…
Após a morte os cunhados desistiram da acção e comprometeram-se a dar a casa ás filhas do João.

12 Comentários inteligentes e algumas alarvidades “O João”

  1. # Anonymous Anónimo

    Esta história chocou-me, Helder. Apesar de não gostar de drogados, não pude deixar de sentir simpatia pelo João. A minha vénia à tua coragem...  

  2. # Blogger Damularussa

    Quantos Joãos não existirao por aí, caro helder..não digo lamentavelmente, que os creio bem humanos..destinados à mal fadada sorte que não souberam construir.
    Se lhe lamento a vida, mais a morte, que descanse, agora em paz...
    Se me permites, foi dos melhores artigos que tive o previlégio de te ler.

    Um abraço  

  3. # Blogger Uxka

    Vidinha puta, com o devido respeito pela classe trabalhadora.
    Há muitos assim, basta às vezes alguém estender uma palavra para fazer a diferença e foi o que fizeste.
    Beijo  

  4. # Blogger Ouriço-Cacheiro

    em seis anos passaram pelos meus olhos muitos mais Joões que pudesse imaginar que existissem. É um misto de raiva, compaixão, compreensão, impotência que me dá. O truque é guardar memórias e não carregar fantasmas.  

  5. # Blogger eu mesma!

    nem sei o que dizer...fiquei bloqueada.  

  6. # Anonymous Anónimo

    Bloqueado estou ;)  

  7. # Anonymous Anónimo

    Ainda bem que existem advogados que sentem assim.

    Jinho grande.  

  8. # Anonymous Anónimo

    Tu e o X têm muito em comum... Ambos têm um coração enorme.

    um abraço apertado  

  9. # Anonymous Maria Alfacinha

    O João acabou por fazer algo da vida dele, mesmo que tenha sido por pouco tempo. Gostei :-)  

  10. # Blogger a_cabra

    Ele há vidas e vidas hélder... e há pessoas e pessoas.... Um abraço para ti  

  11. # Anonymous Anónimo

    Ah granda joão  

  12. # Blogger jj

    Grande João, magnífico Helder!

    Jinhos.  

Enviar um comentário



© 2006 Rais partam isto |