Rais partam isto

Textos que não interessam a ninguém escritos por um niilista agnóstico(seja lá isso o que for...)


Marcámos ás 10 de Sábado...

... na entrada sul do Centro Vasco da Gama.
Há 3 dias que não via os meus filhos. Falava com eles por telefone 2 a 3 vezes ao dia. Estavam tristes, como eu.
Diziam-me que queriam voltar a casa, que já o tinham dito à mamã, mas ela dizia que não podia ser.
Não estavam a ir à escola e não havia qualquer pedido de transferência nas escolas deles em Castelo Branco.
Já há dois dias que eu fazia uma ideia do sítio onde estavam. Um amigo tinha conseguido descobrir que o telemóvel da minha mulher estava, durante a noite, registado na antena da urbanização da Quinta do Infantado, em Loures. Na Sexta Feira ao final do dia, informalmente, consegui, a morada exacta, numa aldeola dos arredores daquela urbanização.
Fui lá na noite de Sexta Feira. Consegui ver luz no quarto e a cabeça do meu filho. Era quase meia noite. Não bati à porta pois sabia que não abririam e, se o fizesse, provávelmente, já não me deixariam ver os meus filhos no dia seguinte.
Detestei o local e a casa.
No Sábado cheguei à Expo ás 8H00. Já tinha feito o reconhecimento pormenorizado do terreno através do google earth, mas queria fazê-lo a pé.
Tinha ainda muitas dúvidas sobre o que iria fazer, mas queria estar preparado para me poder vir embora com os meus filhos se entendesse que era isso que eles queriam e que o podia fazer sem uma situação de confronto potencialmente traumatizante.
Confirmei o que me tinha parecido através do google earth e estacionei o carro o mais próximo possível da saída do teleférico, junto à torre Vasco da Gama.
Chegaram ás 10H00. Os miúdos vinham acompanhados da mãe e do irmão desta que não nos davam mais de 2 metros de distância.
A ideia era ir ao Oceanário. Os meus filhos estavam felicíssimos. Depois de uns metros com os dois ao colo, o Gonçalo quis sair para ir apanhar uma Joaninha. Fiquei só com a Leonor e afastámo-nos um pouco mais enquanto o Gonçalo mostrava a joaninha à mãe e ao tio.
Assim que viu a mãe um pouco mais longe, a Nonô, ao meu ouvido, disse-me "Hoje vou dormir contigo!" "Não pode ser", respondi eu, "Não posso cá ficar, tenho de voltar para casa e a mamã não vos deixa ir comigo...". A resposta imediata dela deixou-me sem palavras: "Vamos pregar uma partida à mamã e fugimos os 3 para a nossa casinha". Calei-me e abracei-a.
No Oceanário pediu-me para ir com ela à casa de banho e insistiu comigo. Voltou a pedir-me a mesma coisa.
Sempre que a mãe se afastava perguntava-me: "Mas quando é que vamos para casa, papá?".
Mais tarde foi o Gonçalo a dizer-me "Quero ir já hoje contigo."
Sempre de forma espontânea.
E difícil tomar decisões em circunstâncias destas. A minha noção é de que os meus filhotes estão claramente melhor comigo e que estavam a sofrer, não só com a minha ausência, mas com a ausência da escola, dos amigos, de casa e das demais pessoas com quem convivem. O Gonçalo dizia-me "A casa de Lisboa é horrível, muito pequenina, e na Rua não há bichos. E tudo feio." "Já estou farto de cá estar. Estamos sempre em casa, ou no café ou nos centros comerciais."
Apesar disso, sabendo que já tinham sofrido um trauma com a retirada de casa, temia que uma nova "fuga" os pudesse traumatizar ainda mais.
Fui deixando correr o dia. Acabámos a visita ao Oceanário, almoçamos no Chimarrão - com a minha mulher e o meu cunhado na mesa ao lado a vigiarem todos os nossos movimentos - e à tarde fomos até ao pavilhão do conhecimento.
Devo confessar que me deu algum gozo obrigar os meus "guarda costas" a gastar dinheiro para entrar nos mesmos sítios que nós.
A visita ao pavilhão do conhecimento foi longa - as exposições são fantásticas para os miúdos - e nela fui ganhando uma maior confiança dos meus "guardas", que se afastaram por duas vezes para fumar e viram que nada tentei.
À saída, perto das 16H00, achei que era hora de definir o que faria. Dirigi-me ao teleférico. Comprei bilhete para mim e para os miúdos. Ida e volta, esperando só usar a ida. A minha mulher e o meu cunhado foram atendidos depois, dando-nos tempo para entrar numa cabine sozinhos. A meio da viagem falei com os meus filhos. Tentei não pressionar. Os dois me confirmaram que queriam voltar. A nônô (Leonor), mais determinada, ficou felicíssima com a ideia. O Gonçalo, mais sentimental e diplomático - nunca quer magoar ninguém-, teve dúvidas por momentos. Perante as dúvidas dele eu desisti da ideia. De imediato me disse que ficava triste pela mamã, que o que gostava era que os dois continuássemos juntos, mas queria ir já para casa. Tenho um orgulho enorme nele por esta faceta sentimental.
Saímos do teleférico em passo normal, aproveitando a distância entre cabines. Assim que saímos da vista da mãe e do irmão acelerámos o passo. A Leonor ao meu colo, o Gonçalo atrás de nós.
O carro estava a uns 20 metros. Só depois de arrancar, com cintos postos, é que reparei na Cláudia a sair do edifício. Não nos viu.
Arrependi-me de imediato. Pedi desculpa ao Gonçalo por não o ter trazido ao colo. Temi que ele pudesse ficar com sentimento de culpa por ter "fugido da mãe". Tentei tirar-lho assumindo a responsabilidade. A Leonor aparentava estar feliz, dizendo "A mamã agora pode ver-nos aos fins de semana de 15 em 15 dias e nas férias". Suponho que era isso o que lhe repetiam em relação ao pai e que ela já tinha memorizado.
O Gonçalo estava nervoso. Mas confirmava-me sempre que queria voltar para casa.
Durante a semana "arrependi-me de me ter arrependido".
Os miúdos estiveram muito bem. O Gonçalo foi recebido na escola como se fosse o Cristiano Ronaldo, com todos os miúdos da sala a gritar "Gonçalo! Gonçalo!". A Leonor não larga o meu colo.
As professoras dos dois dizem que eles têm andado muito felizes, atentos e colaborantes, sem quaisquer sinais preocupantes.
Temos dormido os 3, por insistência deles.
Numa destas noites a Nônô falou a dormir. Dizia "Não mamã, não quero ir!".
Passei a semana com medo que a mãe voltasse a tentar levá-los. Só consegui reaver os livros do Gonçalo e o bibe da Nônô, por troca com os documentos do carro que ela levara. Insistia que os miúdos tinham de voltar com ela para Lisboa. "Eu sou mãe, eles vão comigo para onde eu for!" Assim, tão simples quanto isto.
A Leonor fez anos na Quarta Feira. Convidei a mãe para vir jantar connosco dizendo que podia dormir lá em casa (as fechaduras já tinham sido trocadas e pretendia fechar as portas da rua durante a noite.) Aliás, tenho dito aos meus filhos para dizerem à mamã, como dizem, que pode vir lá jantar e dormir quando quiser. Recusou! Disse que viria ao almoço para passar a tarde com eles. Eu disse-lhe que não, que até haver uma decisão do Tribunal não confiava nela para estar sozinha com eles e não podia deixar de ir trabalhar para a acompanhar. Esta conversa passou-se na Terça e nesse mesmo dia à noite recebi um telefonema de um amigo que me informou que ela estava em Castelo Branco a dormir em casa de uma amiga. Temi pelo que ela estaria a planear - até porque ela insistia em dizer que não me dava as roupas deles porque eles tinham de voltar imediatamente para Lisboa - e na Quarta Feira os meus filhotes não foram à escola.
À hora de almoço, apesar de eu lhe ter dito que não poderia estar com eles, apareceu lá em casa acompanhada da madrasta. Deixei-as entrar sem cenas. Na verdade já esperava - sempre fez o que quis - e em casa estava eu, os meus pais, e 3 pessoas que andavam a fazer arranjos. Esteve lá uma hora. As 14H00 tive de lhe pedir para sair, pois eu tinha um julgamento ás 14H30. Voltei a dizer-lhe para regressar à noite, que nessa altura poderia estar o tempo que quisesse com eles e poderia dormir ali. Recusou novamente. "Eu vivo em Lisboa, tenho de voltar apara casa e não posso passar cá a noite" (que isto de vida de desempregado tem muitos afazeres).
Dois dias depois fez um requerimento ao Tribunal dizendo que eu não a deixei ver os miúdos, nem sequer no dia de anos da filha!...
Hoje - Sábado - estão com a mãe.
Ontem decorreu a primeira conferência no Tribunal e a Dr.ª Juiz atribuiu-me provisoriamente a guarda dos menores fundando-se naquele que lhe parece ser o interesse superior deles. A mãe - que não resistiu a "mostrar-se" discutindo com a juiz - poderá vê-los aos fins de semana de 15 em 15 dias. O segundo "round" vai ser a 27 de Abril, com inquirição de algumas testemunhas.
Agora tenho quase dois meses para poder demonstrar que consigo ser "boa mãe" para além de pai. Tenho a oportunidade de combater a presunção de que só as mães conseguem cuidar bem dos filhos. Estou confiante, aliviado e feliz.

12 Comentários inteligentes e algumas alarvidades “Marcámos ás 10 de Sábado...”

  1. # Anonymous Anónimo

    Também estou feliz por eles ... mas também por ti.
    Um abraço e sempre que precises ...  

  2. # Blogger Orquidea

    Sempre cool... e felizes! É o mais importante.  

  3. # Blogger Nanny

    Tu mereces e eles também!

    Já te tinha dito que considero que a capacidade de amar não é inerente à maternidade, e tu, como pai, amas mais que muitas mães!

    ...and they lived happily ever after...

    Beijocas para os três  

  4. # Blogger DIV de divertida

    Estou de boca aberta... nem sei o que dizer...
    Vieram-me aos olhos lágrimas de raiva pelo que emocionalemnte as crianças terão passado...
    Não conheço nada desse processo por isso não posso sequer comentá-lo.
    O que apenas sei é que essas vivências ficam nas nossas mentes e condicionam toda a nossa vida.

    Ontem fui criança e hoje sou mãe...

    Compreendo que há coisas que te ultrapassam, mas se te faz sentido (a mim faz inteiramente e a minha filha agradeceu) lembra-te que "o amor pelos filhos tem de ser maior do que o ódio ou a raiva pelo outro".

    Mesmo as mães que não deviam ser mães, são emocionalmente, mais do que tudo o resto, AS NOSSAS MÃES...  

  5. # Blogger Maria

    Estou feliz por ti e estou feliz por eles. Fizeste bem em levá-los contigo. eles não precisam da mãe para nada. Para nada. Ponto final. Tu chegas e sobras. És o melhor para eles, nunca duvides disso.


    beijinhos  

  6. # Blogger Rafeiro Perfumado

    É preciso coragem e muito amor para teres feito o que fizeste. Um abraço e coragem!  

  7. # Blogger lifeyes

    "demonstrar que consigo ser "boa mãe"
    "combater a presunção de que só as mães conseguem cuidar bem dos filhos"
    Desculpa esta parte não entendi... Tu tens de provar que consegues ser "boa mãe"? Não! Tu tens é de ser pai!!!

    No fundo eu não consigo é entender porque diabo é tão dificil a algumas pessoas separar casamento (que é apenas um contrato e termina quando quisermos) de paternidade (que é o mais elevado grau de parentesco e não termina nunca!)  

  8. # Blogger viver em segredo

    Boa sorte para os três...  

  9. # Blogger jj

    És um prosador fantástico e uma mãe ainda melhor! :P

    Jinhos e tudo de bom para os três.  

  10. # Blogger Cris

    Olá Helder, espero que as coisas acalmem e tudo se consiga resolver a bem. Não esperava este teu post e não sei o que dizer a não ser muita coragem, luta por eles e ainda que não sirva de consolo... estamos por aqui...
    Um beijo  

  11. # Blogger ci

    ai tou tão feliz por ti...vais ser uma grande "mãe galinha"...he he he

    beijos incomuns para os 3  

  12. # Blogger rascunhos

    olá.nem sei bem como aqui cheguei talvez através do rafeiro.

    espero que a esta altura todo o processo esteja resolvido e que os filhotes estejam com quem eles mais desejam e merecem.

    FORÇA!  

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